Sonatas de Beethoven: três décadas de reflexão musical
O facto da composição das 32 sonatas para piano de Beethoven se ter prolongado por três décadas, faz com que este grupo de obras seja objecto de especial atenção no estudo do percurso criativo do compositor.

Teresa Cascudo / 02.Fevereiro.2002 / Pontos de vista

Enquanto a música orquestral representava, na Viena da transição para o século XIX, uma faceta mais pública da produção musical de Beethoven, as suas sonatas para piano e os seus quartetos estavam primeiramente destinados a execuções privadas. Esse lado mais íntimo do espaço para o qual estavam destinadas, menos determinado pelas convenções dos concertos públicos, explica o importante papel destas obras como o «laboratório» onde Beethoven experimentou as suas inovações mais importantes.

No que diz respeito às sonatas para piano, para além de mostrar o facto do compositor ter sido um exímio pianista, estas obras apresentam várias características estilísticas e composicionais que ilustram, em todo o seu esplendor, as profundas mudanças introduzidas pelo compositor num género que tinha sido profusamente cultivado pelos seus antecessores, nomeadamente por Mozart e Haydn. Entre elas, podemos destacar quatro: o uso que Beethoven fez do profundo conhecimento que tinha das possibilidades oferecidas pela evolução técnica do piano; a sua maneira de explorar de forma radical as limitações estruturais da forma sonata; a sua tendência para a economia na invenção temática dos motivos que constituem a base de cada andamento; e a forma original de utilizar o ritmo como factor dinâmico do discurso musical.

Apesar das características que acabam de ser enumeradas unificarem estilisticamente as suas sonatas para piano (e apesar de cada um dos andamentos contidos nelas apresentarem, isoladamente, características específicas), o certo é que, ao longo dessas trinta e duas obras, Beethoven reflectiu mudanças, fruto da sua própria experiência e da assimilação de estímulos exteriores. Isto não é de admirar, tendo em conta que a primeira colecção de sonatas, as três peças que constituem o seu Op. 2, foram estreadas pelo compositor no Outono de 1795, quando contava vinte e quatro anos de idade, enquanto a sua última sonata, a Op. 111, foi publicada em 1823, quatro anos antes do seu falecimento.

O facto da composição das sonatas para piano de Beethoven se ter prolongado durante quase três décadas, faz com que este grupo de obras tenha sido objecto de especial atenção no estudo da obra do compositor, tendo sido interpretadas, nalguns casos, como exemplo de cada uma das suas fases criativas. A maior parte dos estudos sobre Beethoven baseia-se num esquema tripartido, correspondente com três fases cronológicas ou períodos. Esta divisão foi sugerida pela primeira vez em França, por um autor anónimo, em 1818 e foi usada em diversos estudos publicados nos trinta anos posteriores à morte do compositor: a biografia de Johann Aloys Schlosser (1828), a entrada redigida por François-Joseph Fétis para o seu dicionário (1837), a biografia de Anton Schindler (1840), o influente Beethoven et ses trois styles (1852), de Wilhelm von Lenz, e o estudo intitulado Beethoven, ses critiques et ses glossateurs (1857), de Alexander Dmitryevoch Ulïbïshev (ou Oulibicheff). Esta maneira de entender a evolução do estilo de Beethoven é, ainda, actual, e podemos encontrá-la, com variantes, nos estudos mais recentes sobre o compositor.

As Sonatas para Piano op. 31 (compostas em 1802 e publicadas entre 1803 e 1804) são habitualmente interpretadas como a obra que marca plenamente a primeira mudança no estilo de Beethoven, dando início a um período «intermédio» que se prolongou durante toda a primeira década do século XIX. Actualmente, considera-se de forma consensual a existência de um primeiro grupo de sonatas (até à Sonata op. 22, de 1800) como sendo características da fase de juventude do compositor, quando ainda não tinha feito nenhuma tentativa nem no género sinfonia nem no género quarteto. No grupo seguinte, coincidente, como dissemos, com o período «intermédio», destacam-se as sonatas Op. 27 'Quasi una fantasia' (1801) e a Op. 31 'Tempestade' (1802), em que Beethoven assimilou o novo estilo pianístico vindo de Londres (representado, sobretudo, na obra de Muzio Clementi) e começou a ampliar os limites estruturais tradicionais do género.

A maior parte dos autores coincidem na localização desta mudança, mas apresentam diferenças no que diz respeito à avaliação dos seus resultados. Por exemplo, Ulïbïshev considera que a Sonata op. 53 'Waldstein' (composta entre 1803 e 1805) apresenta já os primeiros indícios da decadência do autor, que culminaria na Sonata op. 90 (composta em 1814): a partir desta obra, a progressiva complexidade formal e o paulatino empobrecimento da melodia fizeram com que, na sua opinião, as últimas composições de Beethoven se tornassem ininteligíveis.

É também consensual localizar o início da fase final da produção beethoveniana a partir da Sonata Op. 101 (1816), incluindo neste grupo as suas últimas cinco sonatas (a referida Op. 101 e as Op. 106, 109, 110 e 111). A avaliação das obras deste período não foi demasiado positiva na época, mas a sua complexidade tornou-se num modelo de referência para muitos compositores posteriores. Só uma minoria - por exemplo, o crítico e musicólogo Adolph Bernhard Marx, cuja influência pode ser encontrada nos ensaios sobre Beethoven, escritos já no século XX, de Carl Dalhaus e de Theodor Adorno - , entendeu, pelo contrário, a última fase de Beethoven como a manifestação de uma espiritualidade progressivamente transcendente. Podemos referir ainda o caso de Franz Liszt, o qual pensava que a obra de Beethoven devia ser dividida apenas em duas fases: uma primeira fase «de juventude», na qual Beethoven aceitou os modelos de compositores anteriores para a elaboração das suas obras, e uma segunda fase caracterizada pela invenção de novos meios de expressão que conduziram ao nascimento de um novo estilo musical.

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