Messiaen e os Pássaros: um Catálogo de Sons
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Messiaen e os Pássaros: um Catálogo de Sons
Para Olivier Messiaen, as aves representavam a ideia de liberdade e ocupavam o topo de uma hierarquia musical à escala planetária.

Ana Telles / 26.Fevereiro.2003 / Dossier Olivier Messiaen

Olivier Messiaen, não foi o primeiro compositor a utilizar o canto das aves como material temático na composição musical, mas fê-lo com dedicação e rigor incomparáveis. Para ele as aves representavam a ideia de liberdade e ocupavam o topo de uma hierarquia musical à escala planetária. Embora fosse sensível a muitos outros sons da Natureza (como os do mar e do vento, por exemplo) e admirasse profundamente os compositores que, como Debussy, Wagner ou Berlioz, os tinham invocado em música, Messiaen considerava que o canto das aves era o mais musical, o mais próximo de nós e o mais fácil de reproduzir.

O fascínio que Messiaen sentia pela Natureza manifestou-se nele desde a infância e foi constante ao longo de toda a sua vida. Na sua perspectiva fervorosamente católica, a Natureza era a manifestação de um dos aspectos da divindade, mas também um factor de saúde e calma a que recorria para ultrapassar os problemas e complicações da vida. Além disso, Messiaen admirava na Natureza a ''pureza e frescura'' que, segundo ele, a Humanidade teria perdido ao longo da História.

Messiaen começou a transcrever o canto das aves quando tinha apenas quinze anos; mais tarde, consultou vários ornitólogos profissionais com quem trabalhou em habitats específicos, tendo chegado a grangear reputação internacional no meio científico. Na sua maturidade, Olivier Messiaen era capaz de reconhecer de imediato o canto de 50 espécies de aves francesas e identificar os sons produzidos por 550 outras espécies europeias com a ajuda de um par de binóculos e um de guia de campo.

Ao longo das suas numerosas saídas de observação, Messiaen transcreveu milhares de cantos de aves de todo o mundo usando a notação musical convencional. Esses esboços, assim como os que fazia de cantos gravados na natureza pela sua segunda mulher, Yvonne Loriod, constituíam a base de muitas das suas obras compostas a partir dos anos 50.

Messiaen comparava a transcrição do canto das aves a um ditado para o qual necessitava apenas de lápis e papel de música (resta dizer que só um ouvido musical tão prodigiosamente sensível como o seu poderia empreender tal tarefa). Esse processo requeria, no entanto, alguns ajustes. Por razões de ordem fisiológica, os sons produzidos pelas aves podem ser muito mais agudos e rápidos do que é humanamente possível reproduzir em instrumentos acústicos. Assim, Messiaen via-se compelido a transcrevê-los em versões mais graves e lentas, respeitando no entanto as proporções do seu material de base. Da mesma maneira, dada a dificuldade em reproduzir os micro-tons presentes no canto das aves, Messiaen fazia corresponder o intervalo mínimo que identificava no seu modelo a um meio-tom da escala temperada e realizava a sua transcrição respeitando essa proporção.

Para poder reproduzir a variedade de timbres presente no canto das aves, Messiaen foi levado a inventar novas e inúmeras possibilidades de orquestração, combinando diferentes instrumentos de forma não convencional para atingir os seus objectivos. No que diz respeito à música para piano, ele acompanhava cada nota do canto principal com um complexo de sons que, pela sua constituição específica, invocava o timbre em questão. Nesse sentido, Messiaen operou uma revolução na história da criação musical, colocando definitivamente a invenção harmónica ao serviço da pesquisa tímbrica.

As primeiras instâncias de utilização de canto de aves na música de Messiaen datam dos anos 1940 («Liturgie de Cristal» e «Abîme des Oiseaux» do Quarteto para o Fim do Tempo, de 1941; e o quinto andamento de Visions de l'Amen, de 1943). Nessas obras, no entanto, as referências são gerais e estilizadas. Em «Regard des Hauteurs», do ciclo Vingt Regards sur l'Enfant Jésus, para piano solo, de 1944, as aves cujo canto é reproduzido são já cuidadosamente identificadas.

É nas obras dos anos 1950 que Messiaen passa a utilizar o canto das aves de forma rigorosa e quase científica. Obras como Le Réveil des Oiseaux, para piano e orquestra, de 1953, Oiseaux Exotiques, para piano e pequena orquestra, de 1955-56, e Catalogue d'Oiseaux, para piano solo, de 1956-58, marcam o início de uma nova era no desenvolvimento composicional de Messiaen. Produzidas numa época de crise pessoal (marcada pela doença e morte da sua primeira mulher, Claire Delbos), elas reflectem uma necessidade de isolamento estético em relação às tendências pós-serialistas dos seus contemporâneos mais jovens e mostram a que ponto o contacto da natureza lhe servia de inspiração e fonte de alívio. Desde então, a especificidade do seu material musical permitiu-lhe renovar por completo os seus conceitos de forma e linguagem, e estimulou-o a criar um estilo pessoal único.

Olivier Messiaen sustentava que não seria necessário ao ouvinte das suas obras saber identificar as aves representadas, uma vez que o valor musical intrínseco das peças é independente da fonte de inspiração que as estimulou. No entanto, é curioso notar que ornitólogos amadores e profissionais sem conhecimentos de música podem facilmente identificar várias espécies representadas nas obras de Messiaen.

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