Editorial 12/13
TemaTocar bem em conjunto significa aprender a viver bem em conjunto. Esta ideia do maestro Riccardo Muti aponta a orquestra sinfónica como um modelo, senão mesmo um ideal para a sociedade. Precisamos de viver bem em conjunto para tocar bem em conjunto? Podemos pensar a orquestra como um micromundo onde se encontram todas as funções da nossa vida organizada? Quais são os mecanismos desta estranha comunidade humana e musical? É esta pergunta que o musicólogo Christian Merlin nos coloca no seu recente livro sobre a vida interna de uma orquestra. Quando chegam à orquestra, através de audições extremamente rigorosas, estes grandes artistas encontram-se numa comunidade fortemente estruturada e hierárquica, dominada pelo maestro todo-poderoso. Trata-se de um conjunto constituído por seres humanos com as suas diversidades, mas quando convergem para um mesmo objetivo, diz Merlin, encontramo-nos perante a mais mágica invenção imaginável: a orquestra.São estas as questões que vamos abordar durante o decorrer das atividades desta temporada festiva da Orquestra Gulbenkian. Quando foi fundada em 1962, como Orquestra de Câmara Gulbenkian, entregou-se com os seus 12 elementos, em particular ao repertório setecentista, antes de encontrar a sua forma atual. Seguir o seu percurso de meio-século é seguir também a evolução da cultura musical em Portugal. Assim, hoje, depois de um rico caminho percorrido e partilhado com o seu público, a Orquestra Gulbenkian festeja 50 anos!Como vai poder descobrir, as múltiplas facetas da Orquestra Gulbenkian vão ser amplamente desvendadas ao longo desta temporada, a ela dedicada. Abrimos as nossas portas no dia 15 de setembro e os músicos aproximar-se-ão do público em concertos com formações variáveis, músicas de diferentes origens, encontros com artistas, filmes e uma exposição. Seguir-se-ão nove meses durante os quais a programação revelará a alma da Orquestra Gulbenkian. Para abrir portas também aos segredos dos bastidores, pedimos à fotógrafa catalã Laia Abril que mergulhasse no seio da orquestra e nos trouxesse a sua vida diária. O meu desejo foi o de que o repertório da temporada demonstrasse a versatilidade e a maturidade do nosso agrupamento. Bach com Michel Corboz, Beethoven com Lawrence Foster, Brahms com David Zinman e estreias de compositores portugueses com Joana Carneiro.A Orquestra Gulbenkian cultiva a tradição e, ao mesmo tempo, renova-a e inova-a através das suas encomendas.VariaçõesCom os seus concertos semanais, um hábito lisboeta de há décadas, a Orquestra Gulbenkian assegura, muitas vezes com o Coro Gulbenkian, a coluna vertebral da nossa programação. Como variação indispensável, o diálogo fértil que nasce do encontro com artistas de renome mundial e diversos agrupamentos, incluindo duas das melhores orquestras internacionais: a Berliner Philharmoniker e a Concertgebouworkest.Assim sendo, convido-o a criar a sua própria variante da nossa proposta Orquestra Gulbenkian 50 anos, deixando aqui algumas sugestões. Seguir a música de Johannes Brahms, do qual a Orquestra Gulbenkian toca as quatro Sinfonias com quatro maestros diferentes. Na área da música mais intimista, poderá imergir nas Sonatas para Piano de Schubert (integral, por Elisabeth Leonskaja) ou nos Quartetos para Cordas do mesmo compositor (integral, pelo Cuarteto Casals). Depois de Wagner+ na temporada passada, pareceu-me pertinente explorar as sonoridades francesas. Assim, em meados de fevereiro, vamos realizar num evento intensivo de 10 dias, entre a Fundação Calouste Gulbenkian e o nosso parceiro Institut Français du Portugal, o Festival Debussy+. Destaca-se uma nova produção músico-literária e teatral do Martyre de Saint-Sébastien, para além dos filmes, encontros, debates, concertos de câmara e a residência de Marc-André Dalbavie, compositor e maestro cuja presença enriquecerá o diálogo entre passado e presente.Gostava, por fim, de chamar a sua atenção para o ciclo Teatro/Música que iniciámos na temporada passada com o Teatro Maria Matos e que continuará a explorar os caminhos entre a música, o teatro, as artes visuais e, agora ainda com mais frequência, a dança: Sasha Waltz movimentar-se-á entre Mozart e a nova música alemã; Barbara Hannigan incarnará Emilie du Châtelet numa nova ópera criada pela compositora Kaija Saariaho com o escritor Amin Maalouf; o artista visual Vasco Araújo, com a companhia de teatro Cão Solteiro, reinterpretará a ópera de Meyerbeer: A Africana.Ainda no campo da expressão teatral irá ser também surpreendido com a possibilidade de outras escolhas igualmente estimulantes, não podendo, de modo algum, perder o último mês da temporada, dedicado à temática shakespeariana. O Diretor Musical da nossa orquestra, Lawrence Foster, dirigirá duas óperas de Verdi (Otello e Falstaff) e ainda Romeu e Julieta na visão de Berlioz e O Sonho de uma Noite de Verão de Mendelssohn.CodaEspero ter demostrado com estes exemplos o que acho de mais importante nesta temporada de aniversário: entender a orquestra como um modelo de bem viver em conjunto. Promover o diálogo entre músicos, entre passado e futuro, entre diferentes formas de arte, entre criadores e público e entre gerações. Para bem ouvir, para bem escutar, sempre em conjunto. Seja bem-vindo à descoberta da Gulbenkian Música 12/13. E, mais uma vez, parabéns à Orquestra Gulbenkian!Risto Nieminen – Director do Serviço de Música 31 Maio 2012