Fundação Calouste Gulbenkian
PesquisarOpções de Pesquisa
Gulbenkian MúsicaEnglish
Semibreves
 
A hora de Ravel
JPEG 448×600 pixels
24-bit / 51,620 bytes
A hora de Ravel

Dois concertos dirigidos pelo maestro Lawrence Foster traçam o retrato do compositor francês

«Ravel representa a oportunidade de perceber o imenso potencial da orquestra». É deste modo que o maestro Lawrence Foster começa por se referir aos dois concertos inteiramente dedicados a Maurice Ravel com que se propõe finalizar a temporada. Para ele, esta é a melhor forma de oferecer um relance abrangente pela «complexidade» de um músico que a Orquestra Gulbenkian não tem o hábito de abordar: «Tocar um concentrado de Ravel em dois concertos, em vez de o tocar ao longo da temporada, é como ficar uma câmara numa imagem particular. Além disso, vai ser óptimo para a orquestra.» A ideia de fugir à dispersão dos programas e debruçar-se sobre um único compositor agrada Foster, para quem a música de Ravel «é uma exploração da beleza».

A escolha das obras não foi ao acaso. Por um lado, o conjunto permite entrever «o extraordinário sentido teatral e a qualidade dramática que atravessam todas as suas peças». «É interessante ouvi-las todas juntas e poder descobrir a sonoridade e a força rítmica que lhes é comum», salienta. Pelo outro, os programas evidenciam a enorme influência de Espanha, país que o compositor tem no sangue, não fosse descendente de bascos por parte da mãe e tivesse bebido aquela cultura desde o berço. Sendo francês, Ravel possuía igualmente «a obsessão que os franceses costumam ter pelos temas espanhóis», ou melhor, pela possibilidade de «combinar a ideia de cor com a estrutura e a disciplina rítmica tão própria da música espanhola». «A suprema expressão disto é o ‘Bolero’», acrescenta Foster, «embora em ‘L’heure espagnole’ também encontremos um mesmo esquema rítmico a ser repetido vezes sem conta, como o tema da infidelidade».

«L’heure espagnole» é, sem dúvida, um dos pratos fortes deste ‘concentrado Ravel’. «É uma comédia impressionante, com elementos trágicos, mas recheada de personagens exageradas, que vai certamente entreter o público», desvenda Lawrence Foster. Esta comédia musical em um acto, com libreto de Franc-Nohain, estreou em 1911 com críticas nem sempre consensuais. Houve quem a considerasse «a mais interessante novidade da temporada» e quem a qualificasse de «trabalhosa e pedante». Será apresentada em versão encenada e acompanhada, no mesmo programa, por peças como «Pavane pour une infante défunte», «Alborada del gracioso», «Boléro» - escrito a pedido da bailarina Ida Rubinstein e inicialmente intitulado «Fandango», segundo Ravel não passou de «uma experiência numa direcção específica e limitada, sem contrastes ou invenção» - e «Rapsodie espangole». Entre todas, esta última constitui, para Foster, o maior dos desafios.

«Esta peça é um postal espanhol, mas também é extremamente moderna. Em geral, as obras de Ravel são mais modernas do que soam. Em ‘Rapsodie espagnole», a ausência de ordem e a ambiguidade harmónica são perturbadoras. Não se consegue dizer em que tonalidade se está a tocar, e isso é fascinante. Trata-se de algo facilmente identificável nos trabalhos maduros de Stravinsky e de Schönberg: de repente não sabemos onde pôr os pés, porque tanto a tonalidade como a harmonia estão sempre a fracturar-se e a mudar», explica o maestro.

Outra obra-chave que não podia ser deixada de fora é o Concerto para Piano em Sol Maior: «Este é também um desafio para o pianista, para o maestro e evidentemente também para a orquestra. E revela o quanto Ravel gostava de explorar os elementos do jazz. Ele sentia-se muito próximo desta linguagem, e de alguma forma sentia que o piano era o melhor instrumento para a veicular. No Concerto para a Mão Esquerda, por exemplo, podemos encontrar ‘blues’. Porém, Ravel é ao mesmo tempo quase neoclássico: há passagens em que se nota a tremenda influência de Bach.» Como Stravinsky, que se referiu a Ravel como «o mais perfeito dos relojoeiros suíços», o maestro Lawrence Foster não esconde a admiração pelo compositor francês: «Ravel tem características que mais nenhum outro compositor tem».


02 Maio 2012


Partilhar no Facebook Imprimir
Fundação Calouste GulbenkianPartilhar no FacebookSiga-nos no Twitter