Dois concertos dirigidos pelo maestro Lawrence Foster traçam o retrato do compositor francês
«Ravel representa a oportunidade de perceber o imenso potencial da orquestra». É deste modo que o maestro Lawrence Foster começa por se referir aos dois concertos inteiramente dedicados a Maurice Ravel com que se propõe finalizar a temporada. Para ele, esta é a melhor forma de oferecer um relance abrangente pela «complexidade» de um músico que a Orquestra Gulbenkian não tem o hábito de abordar: «Tocar um concentrado de Ravel em dois concertos, em vez de o tocar ao longo da temporada, é como ficar uma câmara numa imagem particular. Além disso, vai ser óptimo para a orquestra.» A ideia de fugir à dispersão dos programas e debruçar-se sobre um único compositor agrada Foster, para quem a música de Ravel «é uma exploração da beleza».A escolha das obras não foi ao acaso. Por um lado, o conjunto permite entrever «o extraordinário sentido teatral e a qualidade dramática que atravessam todas as suas peças». «É interessante ouvi-las todas juntas e poder descobrir a sonoridade e a força rítmica que lhes é comum», salienta. Pelo outro, os programas evidenciam a enorme influência de Espanha, país que o compositor tem no sangue, não fosse descendente de bascos por parte da mãe e tivesse bebido aquela cultura desde o berço. Sendo francês, Ravel possuía igualmente «a obsessão que os franceses costumam ter pelos temas espanhóis», ou melhor, pela possibilidade de «combinar a ideia de cor com a estrutura e a disciplina rítmica tão própria da música espanhola». «A suprema expressão disto é o ‘Bolero’», acrescenta Foster, «embora em ‘L’heure espagnole’ também encontremos um mesmo esquema rítmico a ser repetido vezes sem conta, como o tema da infidelidade».«L’heure espagnole» é, sem dúvida, um dos pratos fortes deste ‘concentrado Ravel’. «É uma comédia impressionante, com elementos trágicos, mas recheada de personagens exageradas, que vai certamente entreter o público», desvenda Lawrence Foster. Esta comédia musical em um acto, com libreto de Franc-Nohain, estreou em 1911 com críticas nem sempre consensuais. Houve quem a considerasse «a mais interessante novidade da temporada» e quem a qualificasse de «trabalhosa e pedante». Será apresentada em versão encenada e acompanhada, no mesmo programa, por peças como «Pavane pour une infante défunte», «Alborada del gracioso», «Boléro» - escrito a pedido da bailarina Ida Rubinstein e inicialmente intitulado «Fandango», segundo Ravel não passou de «uma experiência numa direcção específica e limitada, sem contrastes ou invenção» - e «Rapsodie espangole». Entre todas, esta última constitui, para Foster, o maior dos desafios.«Esta peça é um postal espanhol, mas também é extremamente moderna. Em geral, as obras de Ravel são mais modernas do que soam. Em ‘Rapsodie espagnole», a ausência de ordem e a ambiguidade harmónica são perturbadoras. Não se consegue dizer em que tonalidade se está a tocar, e isso é fascinante. Trata-se de algo facilmente identificável nos trabalhos maduros de Stravinsky e de Schönberg: de repente não sabemos onde pôr os pés, porque tanto a tonalidade como a harmonia estão sempre a fracturar-se e a mudar», explica o maestro.Outra obra-chave que não podia ser deixada de fora é o Concerto para Piano em Sol Maior: «Este é também um desafio para o pianista, para o maestro e evidentemente também para a orquestra. E revela o quanto Ravel gostava de explorar os elementos do jazz. Ele sentia-se muito próximo desta linguagem, e de alguma forma sentia que o piano era o melhor instrumento para a veicular. No Concerto para a Mão Esquerda, por exemplo, podemos encontrar ‘blues’. Porém, Ravel é ao mesmo tempo quase neoclássico: há passagens em que se nota a tremenda influência de Bach.» Como Stravinsky, que se referiu a Ravel como «o mais perfeito dos relojoeiros suíços», o maestro Lawrence Foster não esconde a admiração pelo compositor francês: «Ravel tem características que mais nenhum outro compositor tem». 02 Maio 2012