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Henry Purcell: Uma Discografia
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Henry Purcell: Uma Discografia
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Henry Purcell: Uma Discografia

Um dos rostos mais singulares da história da música europeia é revisitado por Augusto M. Seabra.

Comecemos pois a discografia por aí, por Dido & Aeneas, obra muitas vezes gravada e em que várias grandes intérpretes se distinguiram. Mas, pesem ainda Tatiana Troyanos, Anne Sophie von Otter, Della Jones, Lorraine Hunt, Susan Graham e outras, houve uma intérprete de excepção na dimensão trágica do papel: Janet Baker, na sua primeira gravação, de 1962, dirigida por Henry Lewis (Decca). Como concepção global são marcantes duas outras gravações, em tudo opostas, a aproximação à ópera para meninas de Andrew Parrott com Emma Kirkby e a mais terrificante das feiticeiras, Jantina Noorman (Chandos), e o fausto e dramaticidade de Christopher Hogwood com a Academy of Ancient Music e outra protagonista de excepção, Catherine Bott (Oiseau-Lyre).

Mas o teatro musical de Purcell está longe de se resumir à singularidade de Dido & Aeneas. Importa aliás dizer que se impõe o conjunto das músicas de cena de Purcell, a «Theater Music» numa caixa de seis discos (Decca) pela Academy of Ancient Music e Hogwood, com um conjunto de cantores como Kirkby, Judith Nelson, James Bowman ou David Thomas - que maravilhas como o «Rondeau» de Abdelazer (fonte do Guia dos Jovens para Orquestra - Variações e Fuga Sobre Um Tema de Purcell de Britten), as canções de Circe, os trechos instrumentais de The Virtuouse Wife, os famosos Music for a While de Oedipus ou Sweeter than roses de Pausanias, etc.

Quanto às obras propriamente de teatro musical, semi-óperas ou «dramatick operas» como eram designadas, em King Arthur or the British Worthy, pesem ainda os extractos dirigidos por Alfred Deller, ou as gravações de Gardiner, Pinnock e Christie, que todas têm os seus méritos e limites, impõe-se não sem alguma surpresa o mais recente registo, e o único apenas num cd, o de Hervé Niquet com Le Concert Spirituel (Glossa), com a ironia de uma obra à glória britânica se distinguir com intérpretes franceses! Na justamente maravilhosa The Fairy Queen, infielmente inspirada no Sonho de Uma Noite de Verão de Shakespeare, William Christie (Harmonia Mundi) distingue-se por uma concepção muito francesa mas a jóia é a gravação de John Eliot Gardiner (Archiv), nomeadamente com uma inefável Jennifer Smith, sublime no famoso The Plaint: «O let me weep». Enfim em The Indian Queen destaca-se a gravação de Hogwood com a Academy, de resto a mais completa, por incluir mesmo a «masque» final de Daniel Purcell, irmão mais novo de Henry.

A música de corte por excelência de Purcell são as Odes. Há uma integral com o King’s Consort e Robert King (6 cds Hyperion). Mas há maravilhosas escolhas particulares. Na mais famosa das odes, Hail, bright Cecilia, Gardiner (Erato External Link) é o mais majestoso, Philippe Herreweghe (HM) o mais equilibrado e Paul McCreesh (Archiv) o mais luminoso. Se, a ter de ser feita uma opção, esta recai naquele último, o segundo tem o não negligenciável pormenor de incluir outra famosa ode, Welcome to all the pleasures, com um dos momentos mais célebres de Purcell, «Here the deities approve». Quanto à grande obra para a Rainha, Come, ye sons of Art, a gravação a vários títulos pioneira de David Munrow e o Early Music Consort of London (1975) permanece uma das jóias da discografia purcelliana. Não menos célebre é a Música Fúnebre para a Rainha Mary, que terá a mais impressionante das suas realizações no disco do Choir of Winchester Cathedral com David Hill (Argo).

Quanto à música coral, que inclui obras-primas como os «verse anthems» (com solistas), My heat is inditing ou O sing unto the Lord, é clara opção a antologia de Simon Preston com o Choir of Christ Cathedral, Oxford e The English Concert (2 cds Archiv). E no tocante a recitais, destaca-se desde logo aquele, célebre, que é provavelmente um dos mais belos discos de sempre, o de Alfred Deller Music for a While/ O Solitude (HM). Mas há outro belo recital, o de René Jacobs, This nature voice (Accent).

Enfim quanto à música instrumental há uma eloquente interpretação das Fantasias pelo Hesperion XX e Jordi Savall (Alia Vox) e na música para cravo, Suites & Grounds, a antologia de Richard Egarr (HM).

Augusto M. Seabra


13 Novembro 2009


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