Violoncelista de formação, o britânico Paul McCreesh é o novo maestro titular da Orquestra Gulbenkian que hoje comemora 50 anos. É o virar de uma página com a partida de Lawrence Foster em JunhoA Orquestra Gulbenkian, que hoje comemora 50 anos de existência, com cinco concertos e vários eventos numa festa de portas abertas do Grande Auditório a partir das 15h, anunciou ontem que vai ter um novo maestro titular a partir do início da temporada 2013/2014.No próximo mês de Junho, sai o americano Lawrence Foster (n. 1941) e entra o britânico Paul Mc- Creesh (n. 1960), violoncelista de formação. Além de ser fundador e director artístico do Gabrieli Consort & Players, desde 1982, dirigiu o Wratislavia Cantans Festival na Polónia, nos últimos seis anos, e fundou uma editora discográfica, a Winged Lion. O contrato com a Orquestra Gulbenkian é por quatro anos, mas pode ser renovado, como foi várias vezes o do actual maestro titular que completa 11 anos com a Orquestra Gulbenkian quando partir."Tivemos muita sorte de ele [Paul McCreesh] aceitar o cargo", diz ao PÚBLICO o finlandês Risto Nieminen, que dirige o Serviço de Música da Fundação Gulbenkian. "Paul Mc- Creesh tem um conhecimento muito profundo da música e sobretudo da música da época clássica e romântica, que é a que constitui a maior parte da nossa programação."O próprio Paul McCreesh, num contacto com o PÚBLICO por email, diz estar sobretudo empenhado em trabalhar "numa programação mais focada" para que a instituição tenha "um estilo [próprio] forte" e quer "garantir que a orquestra trabalhe com um vasto leque de grandes músicos".Entre outros objectivos, o maestro quer "alargar o acesso a um público mais vasto e apelar a audiências mais jovens, pensando em projectos que os levem aos concertos e lhes abram os olhos para o mundo da orquestra", acrescenta.McCreesh na PóvoaQuem primeiro trouxe Paul Mc- Creesh a Portugal, em 1995, foi o director artístico do Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim, João Marques, impressionado com a primeira gravação dos Gabrieli desse ano. "Era uma gravação fabulosa", diz João Marques por telefone. O agrupamento coral e instrumental voltou mais cinco vezes ao festival para os concertos na Igreja Matriz da Póvoa de Varzim e, mais tarde, Paul McCreesh confessou que o tinha marcado a presença de tantas pessoas, incluindo crianças, sentadas no chão, à frente do conjunto de músicos, por estar completamente lotado o espaço da igreja."A característica que mais me interessou na personalidade dele foi essa capacidade de recriação de eventos da época barroca", continua João Marques. "Depois também se dedicou à música romântica e mais contemporânea." E acrescenta que McCreesh, como novo maestro titular da Orquestra Gulbenkian, pode contribuir com "a sua visão muito completa da história da música".Quando Nieminen chegou para dirigir o Serviço de Música da Gulbenkian, em 2009, Lawrence Foster sabia já que partiria em 2013, e disse-lho. Uma das razões era dar lugar a outros. O processo de escolha começou logo. Vários maestros foram convidados para dirigir a Orquestra, durante as três temporadas que se seguiram, até à nomeação de Paul McCreesh. Não houve um concurso, houve um processo. E foi interessante, continua Nieminen, pois houve tempo para pensar e contactar vários maestros. "A Orquestra não pode escolher um maestro sem tocar com ele", reforça.No caso de Paul McCreesh, foi em Novembro de 2011 que dirigiu As Estações de Haydn com a Orquestra e o Coro Gulbenkian em Lisboa. Esse concerto, lê-se na nota de imprensa da Fundação Gulbenkian, confirmou "uma excelente química", tendo o maestro transmitido "uma energia muito positiva aos músicos e ao público".O próprio Paul McCreesh, no mesmo comunicado, diz ter apreciado "o calor", "capacidade técnica" e "criatividade" dos músicos e "a grande energia" do coro da Gulbenkian. Em Janeiro, Paul McCreesh volta para dirigir quatro concertos, com obras de Mozart, Stravinsky, Schubert, Freitas Branco, Elgar, entre outros, ainda antes de assumir o cargo de maestro titular em Junho.Orquestras com almaAlém da capacidade musical e de bem ensaiar, a principal característica que uma orquestra procura num maestro é a forma como ele se relaciona com os músicos. "É o mais importante. É a base de qualquer colaboração", considera Risto Nieminen."As orquestras não são todas iguais. Um maestro pode trabalhar bem com uma e não com outra. É um aspecto muito sensível. Cada orquestra tem uma alma diferente." Outra característica do perfil procurado pela Orquestra Gulbenkian, além da óbvia disponibilidade (alguns maestros tinham perfil, mas não estavam disponíveis), era o de uma pessoa com contactos no mundo para oportunidades de digressões e gravações de discos, o que é o caso de McCreesh.A Orquestra Gulbenkian tem uma boa motivação, uma alma, diz Risto Nieminen. E Lawrence Foster, um maestro "muito flexível" e "capaz de tocar música de diferentes épocas", contribuiu para isso. Durante os 11 anos que completa em 2013 como maestro titular, "melhorou a qualidade da orquestra", conclui.Ana Dias CordeiroPúblico , 15 Setembro 2012