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O peso dos veteranos no arranque do Jazz em Agosto


Público / 07 Agosto 2012

O primeiro fim-de-semana do Jazz em Agosto ficou marcado por veteranos que definiram a história do jazz e da improvisação. A inauguração do festival coube ao histórico baterista americano Sunny Murray, que se apresentou em trio, acompanhado por dois sólidos músicos ingleses: Tony Bevan no saxofone, John Edwards no contrabaixo. Fornecendo a base rítmica, a prestação de Murray foi discreta, abrindo espaço para a criatividade dos parceiros Bevan e Edwards. Foi desta dupla que nasceram alguns dos momentos mais intensos da noite, sobretudo na improvisação mais enérgica. Contudo, o concerto acabou por soar a pouco, fruto da actuação breve do trio (pouco mais de 40 minutos), que contou ainda com um intervalo pelo meio. Um concerto que se justificou principalmente por ter trazido a Portugal uma verdadeira lenda-viva do jazz, embora o peso da idade tivesse impedido Murray de mostrar todas as suas qualidades, assistindo-se apenas a uma versão algo económica.

A noite de sábado foi preenchida com a actuação do quinteto inglês Led Bib. Grupo jovem, equilibrou a programação deste primeiro fim-de-semana com uma proposta mais fresca, aplicando estruturas e conceitos do jazz com o espírito e a energia do rock. Numa actuação sólida, destacaram-se individualmente as intervenções de Chris Williams (saxofone alto) e de Toby McLaren (teclados).

No domingo voltaram a actuar mais dois veteranos, desta vez os europeus Misha Mengelberg (holandês) e Evan Parker (inglês). Neste caso a música não foi afectada pelas idades dos intérpretes - Mengelberg tem 77 anos e Parker 68 - nem pelas dificuldades de locomoção do holandês.

Quando Misha Mengelberg atacou o piano só a música interessou. Explanou a sua originalidade, articulando uma expressividade oblíqua com um lirismo sub-reptício.

Do outro lado, Parker aplicou-se exclusivamente no saxofone tenor (o saxofone soprano costuma ser o instrumento utilizado nas actuações a solo) e entrelaçou um diálogo frutífero com o piano. O discurso de Parker, que muitas vezes se caracteriza pela intensidade enérgica, ficou marcado desta vez por uma postura mais clássica, mais contida. Piano e saxofone desenvolviam duas vozes autónomas, como linhas paralelas, que por vezes se tocavam, sobrepunham, aproximavam, completavam.

Apesar do carácter individual dos fraseados, a fabulosa conexão trabalhada por Parker e Mengelberg orientava a música gerada no momento por um caminho comum. Ainda que alheio a soluções óbvias, o duo ergueu no auditório da Gulbenkian um monumento de beleza efémera e assombrosa. Os dois históricos improvisadores, figuras fundamentais no desenvolvimento da música improvisada na Europa desde a década de 1960, tiveram neste concerto em Lisboa apenas o seu segundo encontro musical, mas pelo perfeito entendimento parecia que esta dupla tem tocado desde sempre.

O festival continua hoje, mudando-se para o Teatro do Bairro, onde se mantém até quinta-feira. Na sexta-feira regressa ao anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian, encerrando no próximo domingo, dia 12, com a actuação do Chicago Sextet de Ingebrigt Haker-Flaten.

Nuno Catarino

Público External Link, 07 Agosto 2012


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