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Ravel em Espanha
Concerto Orquestra Gulbenkian com direção de Lawrence Foster

Expresso / 09 Junho 2012

Aprendi a gostar de música moderna com Maurice Ravel (1875-1937) — ou não fosse Pedro de Freitas Branco um dos maiores intérpretes da sua obra. Aguardava, pois, com redobrado interesse o concerto de encerramento da temporada Gulbenkian, dedicado a peças espanholas de Ravel, a começar pela obra-prima "L'heure espagnole" (1911), ausente de Lisboa há mais de 40 anos.

Lembro-me da estreia (1964) no São Carlos, com um elenco inultrapassável: Denise Duval, Gabriel Bacquier, Michel Sénéchal. Gosto tanto da ópera que até fui a Estocolmo em 2005 para a ouvir da boca de Anne Sofie von Otter! O enredo conta-se em poucas linhas: Concepción, a fogosa mulher dum relojoeiro de Toledo, gere os vários amantes enfiando-os em relógios de caixa alta. Até que chega o arrieiro Ramiro, musculado e espadaúdo, capaz de carregar com os relógios (mais os seus ocupantes), escada acima e escada abaixo, da loja para o quarto e do quarto para a loja. O desfecho adivinha-se...

A pena é que a "Hora" da Gulbenkian foi mediocremente cantada, esquadradamente dirigida e vítima das ideias parvas e sem graça duma encenadora importada (para quê?). Embaraçosa a troca de gracejos entre maestro e protagonista antes da ópera, bem como a exibição dum relógio, pelo maestro, no fim. Antevejo o pior para o "Falstaff' do bicentenário de Verdi, com mise en scène da mesma signora.

O problema de Lawrence Foster neste repertório é a falta de elegância e erotismo gálicos. Não só diluiu a partitura num pára-arranca entediante como soterrou vários detalhes irónicos sob a barulheira dos fortissimi. Num elenco de terceira, Christine Tocci, em Concepción, provou ser a pior do conjunto, enquanto o melhor, Gilles Ragon, mostrou ter ainda o estilo (mas pouco mais) para o poeta Gonzalve.

A segunda parte do programa era um pot-pourri de espanholadas: Rapsódia, Pavana, Alvorada, Bolero. Apesar de Ravel ser um orquestrador genial, algumas destas peças — casos da "Pavane pour une infante défunte" (1899/1911) e da "Alborada del gracioso" (1905/18) — resultam melhor na versão original para piano. Quanto ao exercício estafante do "Bolero" (1928), pode ser muitas coisas, até um guia de orquestra (com o tema sucessivamente introduzido pela flauta, clarinete, fagote, etc). Como Ravel expli-" cou, não tem forma, desenvolvimento ou modulação. É, simplesmente, até à ejaculação final. Hoje, depois da coreografia de Maurice Béjart (1961) e do filme "10" (1979), de Blake Edwards (com a curvilínea Bo Derek), o "Bolero" é ouvido como o paradigma da obsessão sexual. (Rufus Wainwright também o cita no tema 'Oh What a World', de 2003.)

Foi o "Bolero" que esteve na base do conhecido (e passageiro) desaguisado entre Ravel e Arturo Toscanini, no seguimento dum concerto (1930) em Paris. Toscanini adotava um andamento muito mais rápido do que o compositor estipulava. (A versão mais lenta — quase 19' — é a de Freitas Branco, consagrada com o Grand Prix du Disque.)

Ravel assistiu ao concerto na companhia do maestro português. No final sentiu-se obrigado a ir cumprimentar Toscanini, que abruptamente lhe perguntou o que tinha achado da sua interpretação. Reticente, Ravel limitou-se a dizer que não era bem assim que tinha concebido a peça, ao que Toscanini terá retorquido: "Pois esta é a única maneira de o tornar suportável!" Já na rua, Ravel confessou ao seu amigo Pedro: "Bem, Toscanini é Toscanini, e deve ter razão. O que ele não sabe é que eu compus o 'Bolero' para ser insuportável!" Graças à orquestra, foi a melhor parte do concerto da Gulbenkian. Para o ano há mais.

Jorge Calado

Expresso External Link, 09 Junho 2012


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