Em boa hora a Orquestra Gulbenkian decidiu dedicar dois programas à obra de Maurice Ravel (1875-1937). O segundo destes programas, que aqui se comenta, foi investido de especial coerência temática: agrupou obras orquestrais relacionadas com o espanholismo que grassou em França durante a vida do compositor, e para o qual ele próprio contribuiu: L'heure espagnole, Rapsodie espagnole, Alborada del gracioso e Bolero. Só a Pavane pour une infante défunte, também incluída, tem uma relação ténue com Espanha: há uma teoria que faz derivar o nome da dança cortês Pavana do castelhano pavo (pavão), o que está de acordo com o carácter ponderoso do movimento, mas esta dança surgiu provavelmente em Itália, talvez em Pádua (Pava, em dialecto).O espectáculo foi uma festa. Para ser mais preciso, não foi somente um concerto: L'heure espagnole é uma ópera cómica, que teve até direito a encenação (de Rosetta Cucchi) com alguns adereços e figurinos ao fundo do palco, onde se movimentavam os cantores. O público lisboeta, faminto de ópera, agradeceu. A partitura de Ravel é uma maravilha total, em que a orquestra se empenhou com brio; e o humor, que contamina escrita vocal e orquestração, não podia ser mais contagiante. A encenação, na sua economia, foi certeira e imaginativa, envolvendo mesmo, no início, a participação do maestro e de vários músicos da orquestra, que fizeram de relógio.O elenco, muito equilibrado, contou com a meio-soprano Christine Tocci (Concepción), o barítono Luís Rodrigues (Ramiro), os tenores Gilles Ragan (Gonzalve) e Andreas Jaeggi (Torquemada) e o baixo Robert Holzer (Don Iñigo). Na composição do relojoeiro Torquemada, não estou certo que se tenha acertado na natureza da sua géstica, demasiado afectada; mas não se pode negar que todos os solistas foram coerentes e convincentes na parte que lhes coube como actores e cantores. A palma da voz mais uniforme e macia, na sua admirável energia, vai para Christine Tocci; não obstante, os seus colegas masculinos foram igualmente expressivos e brilharam em passagens de grande dificuldade técnica.Na segunda parte do espectáculo, a Rapsodie espagnole, executada com correcção, ficou aquém do seu potencial: faltou-lhe o dinamismo latino, o salero próprio do legado andaluz que inspirou Ravel. Lawrence Foster redimiu-se de tal secura, apresentando de seguida uma Pavane exemplarmente fraseada, no limite da lentidão requerida. Na Alborada del gracioso, a orquestra respondeu com garra à escrita nervosa e colorida de Ravel. Mas a sua maior exibição, reservou-a para o Bolero, que começa com uma sucessão de solos nas madeiras, a que depois se agregam os metais.Os solistas da orquestra (e convidados como o saxofonista José Massarrão) tiveram exibições de enorme sensibilidade e exemplar mestria; com a progressiva densificação da textura a orquestra manteve a excelência da prestação, e não fosse um flautim de traiçoeira afinação, e talvez o zénite dinâmico prematuramente atingido, a interpretação teria sido, mais do que memorável, absolutamente perfeita.Manuel Pedro FerreiraPúblico , 09 Junho 2012