Quase 40 anos após o 25 de abril, a Gulbenkian corre o risco de ser novamente vista como o ministério (secretaria) da cultura que não há. A próxima temporada de música é justamente dedicada ao cinquentenário da orquestra, nascida a 22 de outubro de 1962 sob o signo (do centenário) de Debussy. A festa começa a 15/9 com cinco concertos de entrada livre (à noite, temos Mário Laginha na «Rhapsody in Blue»); a temporada propriamente dita inicia-se a 4, 5/10 com a «Missa em si menor», de Bach, dirigida por John Nelson, mas para o concerto comemorativo foi escolhido, como prato de resistência, «Le Sacre du Printemps» — uma estreia pela Orquestra Gulbenkian (17, 19/10)! Não faltam monstros sagrados, de Paco Ibánez (3/2) a Grigory Sokolov (11/11), sem esquecer Ute Lemper (24/11), que parece ter tirado assinatura... Lawrence Foster e Joana Carneiro desdobram-se em projetos interessantes, mas Simone Young desapareceu do mapa — e faz falta! Intensifica-se a colaboração com agrupamentos nacionais, como a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música (promovida a Grande Orquestra), Divino Sospiro («Orfeo», 24/2), Músicos do Tejo («Dido & Aeneas» e «Into the Little Hill», de Benjamin, 25,26/4) e Ludovice Ensemble. Importam-se duas orquestras colossais: os Berliner Philharmoniker (com Rattle, 23/11) e a Concertgebouw (com Jansons, 4/2). Tenho pena que não se tenha aproveitado «The Planets», de Holst (6, 7, 9/12) — mesmo sem Salonen — para fazer uma ligação à ciência (Pavilhão do Conhecimento?) ou repetir a experiência do Universe of Sound (à semelhança do Re-Rite , em 2011). Espalhadas pela temporada, vamos ouvir integrais das sinfonias de Brahms, dos concertos para piano de Beethoven, das sonatas para piano e dos quartetos de cordas de Schubert (Cuarteto Casais). O piano, aliás, toma a parte de leão com os suspeitos do costume, mais Andsnes (em concerto e a solo!) e a estreia de Bozhanov. Em contraste, não há um único recital de Lieder! Joyce DiDonato apresenta as suas «Drama Queens» com o Complesso Barocco (2/2). Prossegue a transmissão de 12 óperas do Met em HD (só "Francesca da Rimini" é em diferido). Jacobs regressa com a Akademie fur Alte Musik Berlin ("Die Zauberflote", 25/H) e para um concerto com a orquestra da casa. Hannigan é «Emilie» (a ópera de Saariaho, coencomenda da Fundação, 17, 18/1), enquanto a sua criadora, Mattila, faz os «Vier letzte Lieder» de Strauss (31/1, 1/2), dirigida por McCreesh (?).Marc-André Dalbavie, discípulo de Boulez, é compositor-residente da temporada, e estreia-se o «Requiem» de Pinho Vargas (21, 22/11). Aproveitando o bicentenário de Verdi celebra-se Shakespeare na música: Foster dirige «Otello» (30/5, 2/6) e «Falstaff» (23, 25/5). mas há também «Roméo et Juliette», de Berlioz (9, 10/5), e o «Sommernachtstraum» de Mendelssohn (16, 17/5)- Temos música barroca com fartura, do «Te Deum» de A. L. Moreira, em São Roque (31/12), a um concerto-Telemann (com Koopman e as forças barrocas de Amsterdam, 4/3) que inclui a «Donner-ode» (sobre o terramoto de 1755). Continuam as apostas transversais e as contaminações inovadoras: Accademia del Piacere (música antiga e do mundo), «Vela 6911» de Victor Gama (20/1), «Eclipse» (na escuridão) de Amadou & Mariam (18/11), «A Africana» (a partir de Meyerbeer) pelo Cão Solteiro e Vasco Araújo, etc. Aproveita-se ainda a presença de Anne Teresa De Keersmaeker como «Artista na Cidade» para uma releitura do «Abschied» (Mahler) no arranjo de Schoenberg (15, 16/11). Graças à programação arejada e imaginativa de Risto Nieminen, Gulbenkian-Música soma e segue.Jorge CaladoExpresso , 02 Junho 2012