Foi inteligente, da parte da Gulbenkian, celebrar Wagner (1813-1883) a um ano do bicentenário. Evitou a competição desenfreada de 2013 e conseguiu contratar alguns intérpretes de topo. Depois de um excelente "Tannhäuser" em janeiro, a aposta virou-se agora para o "Siegfried": todo o I ato na lê semana de Maio, a Cena Final na 2*. A dirigir, nada mais nada menos do que Kirill Petrenko, o indigitado diretor musical da Ópera da Baviera (Munique), escolhido também para reger o novo "Ring" de Bayreuth em 2013. A abrir o programa, o "Siegfried-IdylT, composto para o 33o aniversário (dia de Natal de 1870) da mulher, Cosima (que, no ano anterior, dera à luz Siegfried). Que maravilha deve ter sido acordar, embalada por esta peça de câmara (onde se adivinham vários motivos condutores da futura ópera)! Ouvimos a versão para grande orquestra (1878), mas Petrenko não se afirmou como um grande wagneriano. De olhos pregados na partitura, deu-nos uma leitura quase escolar do "Idyll" (prejudicado por pequeno desacerto numa entrada).Felizmente a Schlussszene de "Siegfried" — que inclui o despertar de Brünnhilde e o grande (e temível) dueto de amor com Siegfried — foi esplendidamente tocada pela bem ensaiada Orquestra Gulbenkian. Sei que Anna-Katharina Behnke e Scott MacAllister são respeitáveis wagnerianos, com a agenda cheia em 2013, mas os tempos são de vacas (muito) magras. Há metal na voz do tenor, embora o timbre (e o físico) tenham pouco de heróico e pareçam mais adequados ao deformado Mime. (Não ajuda o facto de MacAllister se ter apresentado em camisa de manga curta e calça escura, como qualquer servente.) A Brünnhilde de "Siegfried" é à mais curta e a mais difícil das três Brunnhildes. A parte pede um instrumento luminoso, que Behnke já não tem. A voz deteriorou-se bastante desde a Sieglinde no S. Carlos em 2007, que o caminho entre Lúcia (?) e Elektra é longo e cheio de escolhos. Os médios são baços, quase inaudíveis; sob pressão, o timbre perde o lustro; os agudos arranham os ouvidos. Mesmo assim, rematou o dueto com um dó agudo (opcional), mas não percebi se o tenor a acompanhou (pois não se ouviu). Atenção: Wuppertal não é na Áustria (como vem na bio do programa)! São conhecidas as ligações de Wagner à Rússia. Faz, portanto, todo o sentido intercalar no programa o "Romeu e Julieta", a abertura-fantasia de Tchaikovsky. Brünnhilde ou Romeu, são ambas histórias de aflição e infortúnio. A versão de Tchaikovsky é das mais shakespearianas: as ânsias da paixão exacerbadas por espadeiradas violentas. Amor e morte; Eros e Thanatos. O tempo é esticado até ao soar do canto da cotovia. Não conheço melhor tradução (em música) do que é estar apaixonado. Ouvir música russa dirigida por um russo (Petrenko) é vislumbrar a quintessência. As penas do amor resgataram o concerto.Jorge CaladoExpresso , 19 Maio 2012