Considerado uma referência na interpretação da obra de J. S. Bach, Philippe Herreweghe tem mostrado nos últimos anos um interesse crescente pelos repertórios do Romantismo e do Pós-Romantismo, tanto em colaboração com a sua Orchestre des Champs-Élysées (que usa instrumentos de época) como com orquestras modernas. O programa, dedicado a Brahms e Bruckner, que dirigiu com o Coro e a Orquestra Gulbenkian, insere-se nesta última vertente e constitui mais uma etapa na sucessão de maestros oriundos do universo das interpretações historicamente informadas (como Paul McCreesch e Ton Koopman) que nesta temporada trabalharam com os agrupamentos da fundação da Avenida de Berna.O programa revelou páginas corais pouco interpretadas em Portugal como Begräbnisgesang (Canção Fúnebre) op. 13 e Schicksalslied (Canção do Destino) op. 54, de Brahms, ao lado da Missa nº3, A Grande, de Bruckner. O concerto ficou marcado pela prestação do Coro Gulbenkian, que correspondeu com desenvoltura técnica, brilho e eloquência a um repertório que não é fácil de interpretar.Herreweghe soube moldar essa massa coral de mais de 90 elementos com eficácia, esculpindo frases e ambientes sonoros e gerindo com precisão uma ampla paleta dinâmica, como é o caso do luminoso clímax da terceira estrofe do sombrio Begräbnisgesang op. 13. Brahms recria nesta original peça a herança da música dos séculos XVI e XVII e dos corais luteranos e usa uma instrumentação unicamente formada por sopros (madeiras e metais). Algumas ligeiras imprecisões nos metais não perturbaram uma interpretação convincente, que viria porém a ser superada pelo equilíbrio entre coro e orquestra e pela expressividade atingida em Schicksalslied op. 54, partitura inspirada num belo poema de Hölderlin.A segunda parte do concerto, com a Missa nº3, de Bruckner, foi menos equilibrada. A própria obra, cuja composição durou um quarto de século, apresenta secções redundantes e longas passagens de uma monumentalidade algo ascética, combinadas com andamentos notáveis como o Credo, dotado de uma teatralidade pouco habitual em Bruckner e de temas e texturas de recorte mais incisivo.O Coro e a Orquestra Gulbenkian continuaram em bom plano, mas os solistas selecionados tinham perfis demasiado díspares entre si, que não contribuíram para a coerência do todo.A soprano Sandra Medeiros, com excelentes provas dadas na música barroca e em papéis de agilidade, prejudicou a qualidade vocal ao tentar superar as limitações de volume sonoro para se fazer ouvir por cima da massa coral e orquestral. Cátia Moreso contrastou pelo seu timbre escuro e encorpado, o tenor Hans Jörg Mammel cantou com profissionalismo, mas sem atingir a distinção artística que tem pautado a sua brilhante carreira internacional e o barítono João Merino correspondeu de forma convincente ao desafio da substituição, à última hora, do anteriormente anunciado Diogo Oliveira.Ainda assim, a obra manteve a sua imponência e Herreweghe soube realçar o que há de melhor em Bruckner e reafirmar a sua paixão por um compositor que tem explorado de forma sistemática.Cristina FernandesPúblico , 21 Maio 2012