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Thanks to My Eyes – Jöel Pommerat e Oscar Bianchi

Público / 18 Maio 2012

Dizem a Joël Pommerat que as peças que escreve são estranhas mas ele garante que passa o seu tempo "à procura do real". Thanks to my eyes, a primeira ópera deste dramaturgo francês, chega hoje ao Teatro Maria Matos External Link.

A ideia perturba-nos: "Nunca se deve confundir a arte com a vida". O dramaturgo e encenador francês Joël Pommerat, 44 anos, deixa cair a frase sensivelmente a meio de uma reflexão sobre o seu trabalho, publicada em Théâtres en Présence (Actes Sud, 2007). É para lá que nos remete a propósito de Thanks to my eyes, a sua primeira ópera, feita com música de Oscar Bianchi a partir de um texto que escreveu em 2002, e que hoje e domingo se apresenta em Lisboa, às 21h30, no Teatro Maria Matos External Link, integrada no ciclo Teatro e Música, coorganizado com a Fundação Calouste Gulbenkian.

"Gosto que as minhas histórias sejam improváveis, torcidas. Que elas não tenham, como se costuma esperar, um início. O teatro é um lugar de possível interrogação e de possível questionamento do homem. Não é um lugar onde possamos ir para confirmar o que já sabíamos, mas um lugar cheio de possibilidades e de questionamentos do que damos por adquirido".

O que serve para os espectadores servirá também para Joël Pommerat, ele que em 1990, aos 23 anos, disse que passaria os próximos 40 a escrever uma peça por ano porque percebera que nunca seria actor nem encenador. "Depois mudei de ideias", diz-nos. A primeira vez que nos repetiu esta ideia foi no início do Verão de 2011, ainda o seu trabalho era desconhecido em Portugal. Tínhamos-lhe ligado porque a sua peça de 2010, Cercles/Fictions, seria apresentada, pouco tempo depois, no Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa, como parte da programação do Festival internacional de Teatro de Almada. Voltou a dizernos o mesmo quando o encontrámos em Paris, em Março deste ano, para a apresentação de Thanks to my eyes. E acrescentou que as quebras nas frases do seu texto, como momentos de respiração das personagens, são "a possibilidade de agarrar a realidade". "O teatro é a minha possibilidade de a elevar a um outro grau de intensidade e de força. Eu procuro o real. Não a verdade. Dizem que as minhas peças são estranhas. Mas eu passo o meu tempo à procura do real".

Olhamos para o palco à procura da realidade e o que vemos, por entre o nevoeiro asfixiante, é a "montanha onde se passará a acção". "Uma casa alta e isolada". Será de noite, mas o nevoeiro cobre o palco de um brilho hipnotizante que não mais o abandonará. O mal toma diversas formas e o nevoeiro esconde-o. Às primeiras frases, ditas por figuras que não distinguimos, sente-se uma gravidade que afligirá permanentemente os corpos aparentemente abandonados à sua sorte; comunicam a partir de uma tensão que é, primeiro, interior e, depois, de oposição ao outro. As personagens vivem num estado de permanente fragilidade, prestes a quebrar. Oscar Bianchi, o compositor, diz que vivem "entre a mitologia e a ruptura". Não serão personagens, serão arquétipos. "Representações", diz Pommerat, antes de uma longa pausa. E depois corrige: "Chaves, são chaves". Mas para quê? "Aymar, um rapaz novo. O seu pai, um cómico reconhecido.

A sua mãe, uma mulher muito velha. Uma jovem mulher, a noite (quase não vemos o seu rosto). Uma jovem mulher loura. Um homem de cabelos longos que passa em frente à casa". Bianchi diz que a "dimensão mitológica das personagens, da qual não se consegue escapar, quase que nos provoca e obriga a testar os limites da sua materialização". E que tendo a palavra, no teatro de Pommerat, "uma importância capital, o impacto simbólico das palavras e da estrutura das frases interfere não apenas com o corpo das personagens, mas também com a própria dramaturgia criada em torno delas".

Pommerat fala-nos da velocidade do tempo real, que só a ficção pode contrariar. "Uma velocidade que tem a ver com o tempo, sempre muito rápido," diz. Bianchi fala de "um terreno denso e de uma história indefinível". Aymar, filho de uma mulher muito velha que se sente inútil e do maior cómico do mundo, gostaria de estar à altura do pai. Vive num torpor sensível que contraria constantemente esse desejo e, a cada noite, nos encontros que vai tendo com uma rapariga tímida, a culpa por não conseguir superar-se adensa-se e vitimiza-o.

Thanks to my eyes, sublinha o compositor, atira para o palco "múltiplos espaços de representação e de domínios simbólicos que obrigam a um diálogo entre o mitológico, o absoluto e ao mesmo tempo, a uma suspensão no tempo e no espaço". Pommerat tem outro nome para isso, um nome universal: perigo. "Gosto de pensar no teatro como um lugar onde um grupo de pessoas - espectadores e actores - está face a um perigo comum. É a isso que, no meu trabalho, chamo de relação com o real, o tempo real, o tempo presente, o instante".

À procura

Os textos que Joël Pommerat tem vindo a criar vivem de uma capacidade de evocação, e não da descrição de um ambiente e de uma estrutura psicológica. Thanks to my eyes não é diferente. No início da peça, o dramaturgo descreve-a assim: "Na montanha. Noite. Um homem de longos cabelos canta. É acompanhado pela guitarra. Música sumária. Acordes simplistas. Murmúrios de vozes. De longe um cântico. Ao longe uma silheta que surge da obscuridade".

O que vai construindo é um exercício de rarefacção, tanto dramatúrgico como visual, sustentando-se numa palavra que parece desfazerse na boca das personagens, como se a sua formulação fosse já o contrário do que tinham pensado. Ou insuficiente para exprimir o que fora formulado, momento antes, a uma velocidade assustadora. Como escreveu em Théâtres en presence, Pommerat quer que o teatro seja "um lugar de possível interrogação e de possível percepção da experiência humana", "pleno de potencialidades de questionamento do que damos por adquirido" e não "um lugar onde possamos ir à procura de uma confirmação do que já sabíamos". O que existe de forte - "de resistente", sublinha Bianchi - nas suas personagens e nas suas acções tem a ver, segundo o autor, com noções de moral. "Por mais que quisesse precisar ou distinguir, não saberia responder se não com mais dúvidas; isso seria sujeitá-las, e ao meu discurso, a uma interferência no imaginário social". É preciso vêlas, acredita. "Talvez depois não seja preciso dizer mais nada". Ao longo do espectáculo, no des

file de contradições a que as personagens vão sendo sujeitas, num exercício que a música de Bianchi sublinha apontando para direcções tão diversas como o texto - "há rupturas sonoras que surgiram das rupturas sugeridas pela falsa linearidade da narrativa", explica o compositor -, Pommerat vai apresentando hipóteses de leitura para estes "jogos de mentira". "Eu não sou alguém que possua uma verdade expressável para os outros. Estou, exactamente, no mesmo caminho e na mesma procura que os outros, e não tenho capacidade de produzir respostas, somente de colocar questões precisas, que não são se não uma parte da realidade".

Tiago Bartolomeu Costa

Público External Link, 18 Maio 2012


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