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Debussy, Pedro Amaral, Brahms
Orquestra Gulbenkian, maestro Lionel Bringuier

Expresso / 28 Abril 2012

Pilhagens e incêndios sucessivos foram destruindo milhões de pergaminhos e papiros da biblioteca de Alexandria, a biblioteca das bibliotecas. Os séculos passaram, mas esta classe de episódios catastróficos não escapou à cogitação artística, inspirando partes da partitura handellana de "Júlio César" e continuando a insinuar-se junto de músicos como Pedro Amaral (Lisboa, 1972), o compositor que há dias estreou, na sua cidade de origem, a peça "Transmutatlons pour orchestre - La bibliotheque en feu". Com as suas folhas descomunais que, para os espectadores, eram reminiscências de lençóis brancos, o manuscrito da partitura foi colocado como se se tratasse de um precioso e remoto incunábulo, tendo sido apresentado ao mesmo tempo que se projetava, em pano de fundo, a imagem de "La bibliothèque en feu", de Vieira da Silva. Dois anos depois de dirigir a London Sinfonietta na estreia da sua primeira ópera ("O Sonho") em Londres, Pedro Amaral confiou a regência da Orquestra Gulbenkian a Lionel Bringuier. No Grande Auditório, o maestro francês dialogou com outras linguagens musicais, a do "Prélude à l'après-midi d'un faune", de Debussy, e a da primeira sinfonia de Brahms, provando a maleabilidade da massa orquestral na destilação das cores debussystas e na grandiosidade de Brahms. Maestros e programadores defendem que não vislumbram forma mais eficaz para combater a escassez de público que assiste à aventura da estreia de uma obra de música contemporânea do que entremeá-la num repertório familiar dos espectadores, o paradigma que também prospera nos concertos da Orquestra Gulbenkian. A conversa entre Amaral e Brlnguier não terá sofrido dos estorvos ligados ao 'fosso de gerações', visto que se tratou de um trabalho de preparação realizado entre duas pessoas de 30 e de 25 anos de idade, respetivamente.

O compositor foi aluno de Lopes-Graça e, nos 22 minutos da sua nova peça, escutam-se, nos elementos sonoros, alusões às experimentações de Stockhausen, Emmanuel Nunes e Eötvös, compositores com quem Amaral se sente em casa.

Ana Rocha

Expresso External Link, 28 Abrill 2012


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