Fundação Calouste Gulbenkian
PesquisarOpções de Pesquisa
Gulbenkian Música English
Recortes de Imprensa
«O ouro do Reno» em HD na Gulbenkian
Uma nova produção do «Ring» por Robert Lepage

Expresso / 16 Outubro 2010

Avizinha-se uma temporada de ópera de grande classe, ao vivo (mas não em pessoa). É na Gulbenkian, por obra e graça do Met, de Nova Iorque — a melhor e mais bem gerida companhia de ópera do mundo. Infelizmente, a festa começa com uma transmissão em diferido (por conflito de datas): trata-se de «Das Rheingold» («O Ouro do Reno»), de Wagner — a primeira jornada de uma nova produção do «Ring» por Robert Lepage. Iniciadas há quatro anos, as transmissões em díreto e em alta definição (HD) do Met revolucionaram a perceção da ópera. Outros teatros seguiram o modelo, mas nenhum o faz com oflair do Met: a mais reputada orquestra de ópera, elencos de alto gabarito, a última palavra em tecnologia e uma desmontagem brechtiana de bastidores.

Na esteira do state-of-the-art das transmissões desportivas, câmaras robóticas móveis, à frente e atrás, dos lados, por cima e em baixo, dão-nos o dose-up e a vista geral. Só ainda não temos — porque a ação é contínua, sem interrupções — a repetição do golo, quero dizer, do dó de peito; mas lá chegaremos. Milhares de cinemas, em meia centena de países, chegam a juntar em comunhão simultânea mais de um milhão de espectadores. Finalmente, há vida para além da miséria instalada no São Carlos.

Vi (e bisei), em setembro, este «Das Rheingold» no Met. Lepage parece hoje mais interessado nas conquistas técnicas do que no drama, o que é pena. A base deste novo «Ring» (em colaboração com a companhia Ex Machína do encenador canadiano) é um sistema de 24 pranchas de alumínio folheadas a fibra de vidro, de dez metros cada, que podem rodar em torno dum eixo horizontal de aço, suspenso de duas torres elevadas em cada lado do palco (cenário de Cari Fillíon). No conjunto, 40 toneladas de material que obrigaram ao reforço do palco. Uma estrutura complexa que se desdobra, total ou parcialmente, em muralha, montanha, leito do Reno, escadaria helicoidal (a caminho do Nibelheim), mina e arco-íris.

Nela se projetam vídeos interativos, que reagem não só aos movimentos como às vozes dos intérpretes. Quando as Filhas do Reno começam a cantar, bolhas de ar desprendem-se das suas bocas e sobem pelo meio aquático. Loge, o espírito do fogo, é uma chama viva onde quer que ande. O níbelungo Alberich trepa por uma encosta de seixos, e lá vão eles de enxurrada. Etc. Os deuses parecem habitar um universo de gravidade zero: eles (ou os seus duplos) escorregam rampa abaixo e voam, negoceiam paredes verticais e ascendem ao Valhalla por truques de levitação. (Na noite de abertura, o sistema bloqueou por razões de segurança e Wotan e companheiros tiveram de sair pelos bastidores...).

Tudo isto seria muito excitante se Lepage se tivesse preocupado em dirigir os cantores. A máquina e respetivos computadores são, porém, o centro do seu fascínio. Como nenhum dos intérpretes é ator que se veja, tivemos uma produção wagneriana convencional, do género park and bark (parcar e ladrar). Os figurinos de François St-Aubin acentuam a convenção. Como é sabido, cantores wagnerianos são hoje uma espécie em vias de extinção. Bryn Terfel (Wotan) é brutal, como habitualmente, e berra o papel sem se preocupar com subtilezas; a monumental Stephanie Blythe (Frícka) tenta ser carinhosa, mas com aquele físico nada funciona (na subida ao Valhalla é substituída por uma dupla com metade do volume e do peso). Eric Owens (Alberich) foi muito aplaudido e Wendy Bryn Harmer (Freia) precisa de comer maçãs para ver se a voz rejuvenesce. Os irmãos Croft, Dwayne (Donner) e Richard (Loge), pouco adiantam, e os gigantes Franz-Josef Selig (Fasolt) e Hans-Peter König (Fafner) equivalem-se. Quando o melhor cantor em cena é o jovem tenor Adam Diegel (Froh), fica tudo dito.

A glória continua a ser a orquestra e a direção de James Levine (bastante alquebrado, depois de graves problemas de saúde). No resto, o prodigioso «Rheingold» do São Carlos, encenado por Graham Vick, leva a palma. Quando é que a RTP External Link acorda e começa a distribuir internacionalmente os DVD do «Anel» de Lisboa (mais os respetivos making of), brilhante cartão de visita do nosso teatro? Investe-se para depois se ficar a dormir em serviço?

Jorge Calado

Expresso External Link, 16 Outubro 2010


Partilhar no Facebook Imprimir
Fundação Calouste GulbenkianPartilhar no FacebookSiga-nos no Twitter