«Em 1966 ou 1968, achávamos que podíamos mudar o mundo com a música ou a arte, mas isso é algo impossível. O que podemos fazer é, de vez em quando, convencer uma pessoa a pensar de forma diferente» Peter BrötzmannReconhecido unanimemente como o unificador dos improvisadores europeus (alemães, britânicos e holandeses) no fim dos anos 1960, Peter Brötzmann é pioneiro da primeira explosão do free jazz sem concessões e muito bem ilustrado em discos, graças à criação de labels independentes geridas pelos músicos (ICP, Incus, Birth, BvHaast, Po Torch, Claxon, entre outras). O saxofonista caracteriza-se por um estilo antiacadémico hiper-expressionista e os seus concertos atingem o limite da resistência física. Atingindo em 2011 setenta anos de idade, é o perfeito exemplo de uma longevidade extremamente activa.Brötzmann, nascido em Remscheid, na Alemanha a 6 de Março de 1941, e vivendo há muito em Wuppertal, hometown de Pina Bausch, deixou-se inspirar desde muito cedo pela Arte, a Música Clássica e o Jazz. Depois de ter estudado clarinete e saxofone, Brötzmann começou carreira na música nos meados dos anos 1960 com um núcleo duro de notáveis músicos como os contrabaixistas Peter Kowald e Buschi Niebergall, os bateristas Jaki Liebezeit e Sven-Ake Johansson, os pianistas Misha Mengelberg e Fred Van Hove e o trombonista Albert Mangelsdorff, os saxofonistas Evan Parker, Willem Breuker e Gerd Dudek, entre outros, com os quais Brötzmann participou em 1966 no início da Globe Unity Orchestra dirigida pelo pianista Alexander von Schlippenbach, que actuou no Jazz em Agosto 2005.O círculo de músicos com quem foi colaborando começou a multiplicar-se nos últimos anos, de tal modo que se torna difícil saber com quem ele toca e em que parte do planeta estará a fazê-lo. Uma coisa é certa: a sua poderosa e destemida aproximação à música situa-se sempre nas alturas e no mesmo sítio onde tem estado há mais de cinquenta anos, o jazz libertário que foge à estratificação. Depois de apresentar no jardim da Gulbenkian o quarteto Die Like a Dog (Jazz em Agosto 2000) e o Chicago Tentet (Jazz em Agosto 2009), o veterano saxofonista de retorno apresenta este ano um renovado quarteto em sequência do anterior Die Like a Dog, por sua vez, uma actualização do quarteto Last Exit que o precedeu nos anos 1980.Constituem o novo quarteto Hairy Bones, criado em 2008, quatro ilustres performers do actual freejazz oriundos de quatro países diferentes: o trompetista japonês Toshinori Kondo, que toca desde os anos 1970 em vários grupos de freejazz e de vanguarda, activo em cidades como Tóquio, Nova Iorque e Amesterdão; o baixista eléctrico italiano Maximo Pupillo, uma das partes do trio de hardcorejazz ZU e que gravou discos com Ken Vandermark, Eugene Chadbourne ou Mike Patton; o baterista norueguês Paal Nilssen-Love, conhecido pelo seu trabalho recorrente com Ken Vandermark ou Mats Gustafsson, entre uma diversidade de projectos. Peter Brötzmann, força aglutinadora do novo quarteto Hairy Bones é um dos mais importantes músicos de freejazz na Europa, exibindo uma forma de tocar que é simultaneamente poderosa e lírica.O disco Hairy Bones, que baptiza o quarteto, foi gravado na BimHuis, em Amsterdão, em 2008 e editado no ano seguinte na label Okkadisk de Chicago. Em Hairy Bones a direcção estética não diverge daquilo a que Peter Brötzmann habituou os seus apreciadores numa prática libertária continuada: confrontações musculadas, ampliadoras de horizontes no género, às quais não faltam um certo tom psicadélico, força do trompete de Toshinori Kondo, da bateria enérgica mas precisa de Paal Nilssen-Love e do baixo eléctrico reverberante de Maximo Pupillo.Fruto do encontro entre o jazz e o rock, a música do quarteto Hairy Bones transmite uma força física, que produz simultaneamente uma música crua e dinâmica, causando uma primeira impressão forte e difícil de esquecer. O trompete de Kondo juntamente com o saxofone de Brötzmann criam em diferentes intensidades um brilhante uníssono, por vezes indistinguível, onde estão sempre presentes o equilíbrio e a precisão, ao mesmo tempo que o lado ritmicamente esfuziante da bateria de Nilssen-Love guia e disciplina o quarteto. Em parceria com Kondo e Brötzmann, o baixo eléctrico de Pupillo ressoa com fragor.A alta-voltagem da performance de Hairy Bones, onde transparece a expressão livre de uma fúria controlada, tem por vezes momentos calmos mas não menos intensos, donde surgem combinações em que dois ou três elementos interagem entre si. Em Hairy Bones o som espalha-se pela sala como combustível e a análise cerebral é ultrapassada pela experiência física e intensa provocada no público.Discografia selectivaHairy Bones (Okkadisk, 2009)Die Like a Dog: Fragments of Music, Life and Death of Albert Ayler(FMP, 1994)Last Exit (Enemy, 1986)Globe Unity Orchestra - Live in Wupertal(FMP, 1973)For Adolphe Sax (FMP, 1972)Machine Gun (FMP, 1972) 26 Julho 2011